Por que crescer sendo menina dói tanto?
Nas últimas semanas, parece que abrir o celular virou sinônimo de levar um soco no estômago. Toda hora mais um caso, mais um nome, mais uma mulher que não deveria ter morrido. Segundo o G1, feminicídio é quando uma mulher é assassinada simplesmente por ser mulher. Só em 2025, o Brasil já registrou mais de mil casos. Mil vidas interrompidas. Mil histórias que não puderam continuar. E o feminicídio é só a ponta de um problema muito maior. Estupro, abuso sexual, violência psicológica, agressões físicas. Mulheres no mundo inteiro convivem diariamente com algum tipo de violência por causa do próprio gênero. O Brasil, inclusive, ocupa o 5º lugar no ranking mundial de feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Estamos atrás apenas de países como El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia. Isso não é um dado distante. Isso é sobre nós. O que assusta ainda mais é perceber que tudo isso acontece em um mundo cada vez mais polarizado. E, historicamente, em momentos de crise política e econômica, os direitos das mulheres são sempre os primeiros a serem questionados, cortados ou revogados. Não importa se o discurso vem da direita ou da esquerda. Quando convém, se unem para controlar nossos corpos, nossas escolhas e nossas vidas. Um exemplo claro disso é o PL 1904/2024, que propõe criminalizar o aborto após 22 semanas, equiparando ao homicídio, mesmo em casos de estupro ou anencefalia. Durante as férias, fiz um summer camp em Yale University e lembro de conversar com minhas colegas de quarto sobre como era injusto viver em estados dos Estados Unidos onde o aborto não é legalizado. Quando eu disse que, no Brasil, essa é a realidade do país inteiro, o choque foi imediato. Aqui, mulheres morrem todos os anos por recorrerem a abortos clandestinos. Isso não é debate abstrato. É sobrevivência. Em tempos de crise, o corpo feminino vira instrumento de controle e manutenção de poder. Esse discurso conservador que romantiza a ideia da mulher “submissa”, como se isso nos tornasse mais femininas, é só mais uma forma de nos afastar da nossa liberdade. Foi através do trabalho e da independência financeira que mulheres conquistaram o direito de escolher se querem casar, ter filhos ou simplesmente viver para si mesmas. Ao mesmo tempo, a internet tem sido palco para uma onda preocupante de grupos misóginos. Comunidades como incels, redpills e a chamada machosfera vendem ódio disfarçado de autoajuda. O jornal acadêmico Frontiers in Psychology mostra como esses espaços influenciam meninos a adotarem visões distorcidas de masculinidade, defendendo submissão feminina e normalizando a violência. E a violência nunca começa grande. Ela começa em um comentário. Em uma piada. Em um olhar. E pode terminar em um crime. Mesmo assim, quando a violência acontece, a culpa quase sempre recai sobre nós. Basta olhar os comentários em redes sociais como o TikTok. “Se ele matou, é porque ela deu motivo.” “Mas que roupa ela estava usando?” Nenhuma roupa, nenhuma atitude, nenhum silêncio justifica violência. Nunca. Eu lembro exatamente da primeira vez que percebi que tinha sofrido assédio. Eu tinha 10 anos. Estava viajando, brincando na piscina do hotel com a minha irmã, como qualquer criança deveria brincar. Até perceber um homem, com idade para ser meu avô, me olhando de um jeito que me fez sentir culpa, medo e vergonha. Algo mudou ali. A brincadeira perdeu a leveza. Eu quis sair da piscina. Com a puberdade, meu corpo mudou. E os olhares também. O medo aumentou. Andar sozinha, passar por lugares cheios de homens, segurar a chave entre os dedos “por precaução”. A primeira vez que um homem não só olhou, mas fez um comentário, eu congelei. Pensei em responder, mas o medo foi maior. E se ele me seguisse? E se algo pior acontecesse? Esse medo virou rotina. E algo sempre me incomodou: por que os comentários e os olhares aumentavam quando eu estava de uniforme? Claramente uma estudante. Claramente menor de idade. Quando o debate sobre adultização infantil ganhou espaço, ficou claro para mim que o problema nunca esteve na vítima. Pedófilos estão em todos os lugares. E isso é assustador. Eu nunca vou entender como alguém consegue ver maldade em uma criança. Ou matar alguém apenas pelo gênero. Ou violar a intimidade de outra pessoa. E, sinceramente, eu não quero entender. Eu quero mudar. Não é justo que meninas precisem crescer tão rápido. Que nunca se sintam seguras, nem na rua, nem em casa, nem perto de pessoas conhecidas. Muitos abusos acontecem dentro da própria casa da vítima. O medo é constante. E ele só aumenta quando vejo mulheres se dizendo “antifeministas”, indo contra os próprios direitos, nos colocando ainda mais em risco. Eu sonho em ser política. Mas como sonhar com isso em um espaço onde o desrespeito com mulheres é tão normalizado? Ainda assim, eu acredito que a mudança começa pela juventude. Pela escola. Pela educação. É aí que a luta precisa começar. E enquanto isso, projetos como o PDL-03/2024, aprovado na Câmara em 2025, suspendem resoluções do Conanda que garantiam acesso ao aborto legal para crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. É impossível não se perguntar: até quando? Esse texto não é só um desabafo. É um pedido. Para que a gente fale. Para que a gente questione. Para que a gente não aceite o medo como algo normal. Porque viver não deveria ser um ato de coragem.
Beatriz Viana
12/22/20251 min read
